Sandra Gamarra Heshiki

Sandra Gamarra Heshiki

Nascida em Lima, no Peru, em 1972, Sandra Gamarra Heshiki é uma figura central na arte contemporânea latino-americana. Sua obra não é feita para ser apenas contemplada ou decorativa; ela é puro ativismo visual. Através da pintura e da instalação, Sandra questiona as heranças coloniais, o racismo e o apagamento das raízes indígenas, transformando a arte em um poderoso exercício decolonial que desafia a forma como os museus contam a nossa história.

Visitar uma exposição de Sandra Gamarra Heshiki não é um ato passivo. É um encontro com o desconforto, com a réplica e, acima de tudo, com a verdade que se esconde atrás das molduras douradas dos museus tradicionais. Recentemente, mergulhei na mostra “Réplica”, no MASP, e a experiência me despertou reflexões profundas sobre como a arte pode ser, ao mesmo tempo, um registro de violência e uma ferramenta potente de cura.

A trajetória de Sandra é marcada por uma sensibilidade aguda. Em 2002, ela criou o LiMac (Museu de Arte Contemporânea de Lima), um museu que existia apenas em logotipos e objetos, denunciando a ausência de instituições culturais em seu país natal. Essa ficção foi o ponto de partida para uma crítica maior: o modo como os museus ocidentais tratam as culturas que conquistaram e saquearam, apresentando seus “tesouros” como se fossem apenas objetos distantes, ignorando o sangue e o apagamento espiritual que os cercam.

A exposição “Réplica” organiza-se como uma linha do tempo que vai do pré-colonial ao contemporâneo. O que mais toca o coração é perceber que Sandra não apenas cria; ela se apropria e intervém. Ao copiar obras históricas, ela remove a aura de “verdade absoluta” do colonizador.

Ao percorrer os seis núcleos da mostra, senti a presença constante do que ela chama de “exercício decolonial”. É impossível ignorar o racismo estrutural e a forma cruel como o imperialismo se impôs sobre as raízes peruanas. Suas pinturas funcionam como catalisadores: elas nos mostram que a natureza não é apenas um bem a ser explorado e que a cultura nativa não desapareceu; ela resistiu, evoluiu com dor e agora reivindica seu lugar na narrativa.

“A pintura se apresenta como um catalisador para uma forma de representar o mundo e também como uma tradutora de outras sensibilidades.” – Sandra Gamarra Heshiki.

O que Sandra nos propõe em sua última sala, onde oferece fotocópias de suas próprias obras, é um gesto de generosidade e subversão. Ela devolve a imagem ao público, democratiza a autoria e nos faz pensar sobre a fragilidade da ideia de “original”.

Saí do MASP sentindo que a arte de Sandra Gamarra é uma semente necessária. Ela nos ensina que olhar para o passado com criticidade é o único caminho para construir um futuro onde as narrativas indígenas, mestiças e latino-americanos não sejam apenas réplicas do olhar europeu, mas sim as protagonistas de sua própria história.

Se você busca uma experiência que conecte estética e consciência política, permita-se ser atravessado por esse espelho decolonial.

Fonte:

https://galerialeme.com/artist/sandra-gamarra

https://masp.org.br/exposicoes/sandra-gamarra-heshiki-replica

Nota:

Créditos da imagem: edição e composição autorais, com fotografias de minha autoria. Imagem complementar da artista reproduzida a partir da página Hoy es Arte. Foto original: ©Guillermo Gumiel.